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Made by Children

terça-feira, maio 24, 2016


Quantas vezes não ouvimos dizer aos nossos miúdos "Come a sopa toda, há meninos no mundo que não têm o que comer!", "Estás a queixar-te porque não te dou o que queres? Há meninos que não têm nada e não se queixam!" , "Há meninos da tua idade que já trabalham! Sabias??" e, porra, isto é dito com tamanha leviandade que passou de informação chocante a pregão nacional.
Queremos informar os nossos filhos/sobrinhos/irmãos talvez porque não queremos que se tornem frívolos... como nós!

As imagens de crianças tristes, de crianças em sofrimento extremo, colidem de frente com as nossas emoções e fazem-nos refletir, ainda que por instantes, num mundo longe do nosso. Mas será que estamos a tornar-nos imunes à desgraça alheia?

Há umas semanas, ao passear pela baixa da cidade deparei-me com uma loja com artigos étnicos lindíssimos, a dona extremamente comunicativa, simpática e de bom gosto indiscutíveis disse-me que todos os artigos eram feitos por artesãos portugueses e gregos. Nem parece meu, mas discretamente e impelida por uma curiosidade súbita olhei para a etiqueta de origem de um quimono bordado com pedraria incrustada, dizia "made in India". Saí da loja, talvez hipocritamente porque sei que, provavelmente, 70% da minha roupa é de origem duvidosa, mas saí.

Nessa tarde sentei-me no computador e pesquisei "embroidering in india" e entre imagens bonitas e coloridas surgiu esta:


Um miúdo, talvez da idade de um dos meus sobrinhos, a bordar à mão. Talvez este não seja o seu primeiro emprego, talvez este não seja o seu único emprego. É só um miúdo. Devia estar na escola, ou a brincar ou a fazer o que uma criança da idade dele faz.

Resolvi explorar um pouco mais este assunto e não queria acreditar que (segundo a ILO - International Labour Organization) 170 milhões de crianças (17 vezes a população do nosso país) são submetidas a trabalhar ilegalmente em condições deploráveis, a maioria deles ao serviço de empresas têxteis.
Egito, Paquistão, Tailândia, China, Uzbequistão, Bangladesh e Índia, são os países com maior índice de exploração infantil. Não é coincidência que a maioria das marcas de roupa/acessórios que compramos venham essencialmente da China, Bangladesh e Índia.

O trabalho infantil é proibido por lei e constitui um atentado aos direitos humanos, mas estes miúdos não têm direitos nem leis que os protejam.


O conceito de trabalho dos nossos miúdos é "aquilo que os papás fazem" ou "aquilo que fazemos na escola com a professora" e esta realidade não poderia ser mais distante das crianças que colhem algodão de sol a sol nos campos do Uzbequistão, dos meninos que passam horas em pé a fabricar fio na Índia e dos miúdos que fazem sapatilhas no Bangladesh.
Segundo a SOMO (Centre for Research on Multinational Corporations) e a ICN (India Committee of the Netherlands) os inúmeros empregadores inescrupulosos prometem às famílias que proporcionarão às suas crianças educação, refeições e melhores condições de vida o que não corresponde de todo às condições de escravatura às quais sujeitam as crianças.
Estas crianças são mão-de-obra não qualificada e obediente, tudo o que a indústria da moda precisa para aumentar as suas margens de lucro sem contestação.

As "preocupações" éticas das grandes marcas que todos compramos são, muitas vezes, duvidosas e os mecanismos de controlo e auditoria in loco insuficientes. E desenganem-se se pensam que isto só acontece com as empresas de low-cost fashion, algumas das marcas mais luxuosas do mundo já se viram envoltas em polémica relativamente à origem dos seus artigos.
No entanto, devemos ter em consideração que nem sempre é possível ou exequível para as grandes marcas saberem a cada momento aquilo que se passa num determinado ponto da sua cadeia de fornecimento de matéria-prima, uma vez que os caminhos se estreitam e existem inúmeras empresas que sub-contratam sem registos.

A verdade é que nós, consumidores, não fazemos a mínima ideia da origem das roupas/acessórios que compramos e são poucas as marcas que nos podem garantir, com toda a certeza, que os seus artigos não passaram em nenhum momento pelas mãos de uma criança sujeita a qualquer forma de escravatura.

Devemos essencialmente ser consumidores informados e procurar saber mais sobre a política de compra de matéria prima de cada marca para não compactuarmos com as práticas supracitadas que nos entristecem e envergonham a todos.
Atualmente existem associações e organizações que permitem certificar toda a cadeia de distribuição e garantir ao consumidor/produtor que estão a comprar/comercializar artigos resultantes de comércio justo:

Para quem quiser ler mais sobre o assunto, consultem a página Unicef - Chil Labour, onde fui beber muita da informação contida neste post.

Peço-vos que reflitam, que comprem em consciência, analisem com espírito crítico e que transmitam aos vossos filhos a realidade de outras crianças do mundo de forma séria e significativa e não quando eles se recusam a comer a sopa. :)



Beijos mil*



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1 great lady(ies) said:

  1. Os comentários a esta publicação foram acidentalmente eliminados! :( Segue abaixo a reprodução dos mesmos:

    Ana Matias
    É incrivel como isto pode acontecer em pleno século XXI :(

    Filipa Silva
    Só de imaginar meninos como a minha filhota a serem forçados a trabalhar parte-me o coração. mas a verdade é que todos compactuamos com isto!!!

    Anónimo
    É triste e revela total falta de responsabilidade do consumidor. Devemos exigir a origem limpa daquilo que compramos.

    Anónimo
    Não sejamos hipócritas, a verdade é que continuamos e continuaremos a comprar!!

    Sara R.
    Vivo no Porto e sei exatamente qual a loja a que te referes -.-''

    ResponderEliminar

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