Um cancro qualquer

sexta-feira, novembro 20, 2015

Quando fiz 18 anos (já lá vão 8) decidi que queria fazer alguma coisa para mudar o mundo (julgava eu que conseguia). Explorei diferentes áreas, diferentes vertentes mas o contacto com a realidade vivida em Oncologia Pediátrica mudou a minha vida, para sempre. Cada uma das histórias, cada uma das conversas partilhadas, cada um dos gritos silenciosos, marcaram a minha existência a ferros quentes. Sim, porque nenhuma memória veio sem dor.

Na minha família (fora do núcleo de pais, irmãos, sobrinhos) tivemos alguns casos de cancro, sempre vistos a uma distância relativa que não nos permite imergir na vivência diária dolorosa que a doença acarreta, mas que nos faz pensar no cancro de forma diferente... não nos deixa esquecer que a vida é efémera, que a morte vive na porta ao lado.
Mas na verdade (e sem artificialismos hipócritas) a minha vida continuou, naturalmente, continuei a sorrir, a viver alegremente, a rir (e a fazer rir) à gargalhada... como sempre! 

Até que recentemente a minha família foi abalada por uma nuvem negra. Dói tanto. É o meu pai. Não é um cancro qualquer.

Depois do resultado dos exames surgem como afagos da alma as mais variadas justificações mentais, porque o que estamos a ver tem mil e uma explicações patológicas compatíveis e, claro, não queremos acreditar que a verdade pode ser de facto aquilo que todas as probabilidades apontam como certo.
Os pensamentos que queremos afastar tornam-se presentes, aproximam-se, ganham força.
Os corredores do centro de saúde, do hospital, tornam-se longos e de percurso penoso quando ouvimos a "sentença".  E depois seguem-se as consultas meticulosas, os exames exaustivos, as dolorosas conversas de corredor de hospital, o diagnóstico.

Não é um cancro qualquer, é O cancro, aquele que acontece na minha casa, que me bombardeia diariamente com imagens e sons que nunca conseguirei esquecer. Um cancro com raízes profundas, tão profundas quanto a dor que nos trouxe.
Começa também a metáfora das pequenas coisas, coisas essas que antes me forçava a ver relembrando que "o essencial é invisível aos olhos"... Agora estão todas aqui, cruamente expostas, as pequenas dádivas da vida. E continuamos a caminhar, não sabemos bem como, talvez porque não tenhamos outra alternativa. O caminho é em frente.

Somos formatados para aguentarmos tudo pelas pessoas que amamos, se já o sabia agora tenho a certeza. A resiliência é posta à prova diariamente e a cada dia a tolerância à dor aumenta e com ela uma força que nem num milhão de anos imaginamos ter. Uma força que vem do âmago do nosso ser, acompanhada por uma sensibilidade extrema que, estranhamente, também nos fortalece.
Dias melhores virão e piores também. Mas a seu tempo somos impregnados por uma calma mecânica, um sentido de missão que nos ajuda a superar os maiores obstáculos. É, somente, a força de um amor maior do que tudo. Este amor que em situações limite desponta de todos os poros emerge-nos da dor, imerge-nos na esperança, todos os dias.


Este texto foi escrito há alguns meses mas não tive coragem de o publicar... até agora.

O meu pai, o meu herói, deixou-nos há duas semanas. Precisava de descansar do outro lado do caminho. Partiu rodeado de amor, do nosso amor, até ao fim. Foi e será sempre um exemplo de força.  Estoico, assim é o meu pai.

Agora os dias são mais frios e a saudade atravessa-nos sem piedade. Mas todo o sofrimento foi levado pelo vento e resta apenas um coração cheio de memórias maravilhosas. Conservo em mim a resiliência que herdei de uma mãe e de um pai que nos geraram e criaram (a mim e aos meus irmãos) com um amor maior do que o tempo. 

Não fiz este caminho sozinha e simples palavras nunca serão suficientes para agradecer a todas as pessoas que caminharam comigo e com o meu pai, mas ainda assim não posso deixar de dizer-lhes:
OBRIGADA...
  • À minha família fantástica, em particular os meus tios e tias do coração e à minha prima e princesa Kristina
  • A todos os Barros que se uniram como matilha que somos. 
  • À minha mãe, a um exemplo de mulher, de pessoa, de força, que eu amo profundamente. 
  • Aos meus irmãos amados por terem sido as minhas pernas e braços quando precisei, por sermos parte uns dos outros e suporte uns dos outros. 
  • Aos meus cunhados maravilhosos e à minha cunhada/irmã/amiga que nos deram suporte e um amor incondicional.
  • Aos meus sobrinhos mas lindos do mundo pelos beijinhos, abraços, brincadeiras, sorrisos e fonte inesgotável de amor.
  • Aos amigos que estiveram sempre presentes... choraram comigo e riram comigo.
  • À minha Xis, por me ver como mais ninguém me vê, por ser como ninguém é.
  • Às inúmeras pessoas, conhecidas e desconhecidas, que souberam serenar o meu coração nos momentos em que mais precisava.
  • Ao meu namorado, companheiro, parte integrante da minha família, que nos amparou, ajudou, abraçou-nos e suportou-nos SEMPRE.
  • À Dra Elvira Pinto que nos colocou no caminho certo. 
  • Ao Dr. Luís Andrade e a toda a equipa do serviço de Medicina Interna 3 do centro hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho pelo carinho e respeito com que nos trataram e por serem, sempre, incansáveis.
  • À Dra Sandra Custódio pelo carinho e cuidado com que tratou o meu pai. 
  • À equipa da unidade domiciliária de cuidados paliativos do centro hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho que faz um trabalho notável.  
  • À Dra Cláudia Costa e à enfermeira Sónia Barbosa pelos cuidados que prestaram ao meu pai, por nos ajudarem a cuidar dele da melhor forma possível.
  • Ao Dr. João Machado Vaz por ser o meu guia como cuidadora, pela sua forma sensível de lidar com as emoções e os sentimentos de quem se cruza no seu caminho, pelos bons conselhos.
  • À Dra Joana Lourenço, que foi a última pessoa que conheci durante todo este processo e foi também aquela que mais profundamente tocou o meu coração, a pessoa que jamais esquecerei.
  • E à minha querida amiga e enfermeira Ana Celeste Cangueiro, agradeço-lhe somente por ser como é, por estar presente, pela sua enorme vocação.

Estarei disponível neste nosso blog na medida do possível e agradeço as inúmeras mensagens e sugestões que continuo a receber. Todas serão respondidas, prometo! :) 

Até já*

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21 great lady(ies) said:

  1. Não tenho palavras, aliás acho que nestas alturas nenhuma palavra faz grande sentido; ainda assim, o que posso desejar é que tenhas força... tu e os teus. O teu pai certamente estará num sitio melhor a olhar por vocês.

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  2. Nem consigo imaginar o que estarão a passar neste momento.... Uma história que me toca mt pq tb o meu pai é o meu herói e pensamos sempre que os pais são eternos e que nunca nada de mal lhes acontecerá...
    Não havendo nada que se possa dizer para amenizar a dor, deixo o meu desejo sentido de que consiga ser forte e seguir em frente da melhor maneira! A melhor homenagem que podemos fazer aos nossos q já não estão connosco é seguir em frente e tentarmos ser felizes!
    Um beijinho grande com muita força!

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  3. É nestas alturas que as palavras nos fogem, e apesar de não sermos conhecidas o meu beijinho de força, porque ter/seguir um blog é mesmo assim, é como se as pessoas estivessem ao nosso lado e sentimos carinho por elas.
    Força para enfrentar o futuro e a saudade e nunca apagues as boas memórias do teu coração.:)

    beijinhos,
    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  4. Olá,
    Identifiquei-me com o texto que escreveste... Infelizmente aconteceu-me o mesmo a mim, com o meu pai.
    Também teve cancro, diagnosticado desde o inicio deste ano e faleceu no dia 10 deste mês... É muito difícil :(

    Muita força.. Beijinho

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  5. nunca imaginei... espero que te estejas a aguentar... estagiei na medicina 3 do santos silva e sei que são uma equipa fantástica, sei que apesar de nao ser reconhecido muitas vezes toda a equipa desse hospital é muito boa. acredito que foi bem seguido... e acredito que está agora a olhar por ti e a proteger-te mesmo que não o vejas...

    um beijinho e muita força!

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  6. Trabalhei em medicina 3 e só posso agradecer pelo teu reconhecimento. Infelizmente vemos muitas reclamações e poucas recomendações e isto importa a médicos, enfermeiros e auxiliares. Damos o nosso melhor todos os dias. Ym grande beijinho e toda a força do mundo

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  7. Lamento imenso aquilo pelo que estás a passar, vivi uma situação semelhante com a minha mãe infelizmente. O Hospital Santos Silva é sem dúvida um dos melhores e conheço alguns nomes que estão aí, tb me ajudaram a ultrapassar momentos difíceis :) Parabéns pelo post, está maravilhoso.

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  8. Vai tudo correr bem e esses clichés todos.
    Não te conheço mas desejo-te a maior sorte deste mundo.
    Mta força e beijinhos :)

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  9. Olá Cláudia! Sou enfermeira no CHVGE e posso dizer-te que me cruzei várias vezes contigo no longo corredor do piso 3 - Internamento, assim como te vi numa das consulta de Paliativos com o teu pai.
    Encontrei este texto por acaso e mostrei-o a uma das pessoas que mencionas. Vocês não foram indiferentes, como aliás nenhum dos nossos pacientes é. És lembrada como o escudo do teu pai, os dois com uma força imensa e tu com uma amabilidade e generosidade impressionantes. Coisas boas virão de certeza. Obrigada em nome de todos.

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